Escapando de uma furada

André Lobão
3 min readMay 7, 2021

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Entre os meses de julho e dezembro de 1991, fui chamado por um amigo para trabalhar em uma casa de câmbio como liquidante. O liquidante é o office boy que transporta o dinheiro das transações cambiais informais, na verdade é o chamado avião ou mula. Se alguém queria comprar determinada quantidade de dólares ligava para a casa de câmbio, fazia a reserva e recebia a bufunfa em casa, pagando em espécie ou com cheque, e quem fazia esse leva e traz era o liquidante. Naquela época os bancos ainda não haviam popularizado as transferências bancárias por sistemas online como hoje, muito menos as casas de câmbio.

De início, eu fazia isso de forma tranquila, mas depois comecei a perceber que outros colegas eram assaltados e agredidos. Apesar de disponibilizarem verba para táxi e motoristas para fazer o transporte, era um serviço perigoso. Ainda mais em uma época de crise como no governo Collor em que a economia era praticamente dolarizada. Todo negócio que se fazia tinha como referência o dólar. Quem queria fazer uma poupança, comprava dólar. Para se ter uma ideia o meu salário correspondia a US$ 150.

Era de fato um meio estranho em que pessoas andavam armadas, desconfiadas e haviam seguranças que geralmente eram ex-policiais , ou leões de chácara envolvidos em trabalhos escusos, que ficavam sempre na espreita com histórias bizarras para contar.

Os operadores eram pirados, com gente alcoólatra ou viciada em cocaína. Os donos do negócio eram playboys que já haviam operado no mercado financeiro de grandes mesas de operação de bancos e bolsa de valores.

O câmbio é um ramo do mercado financeiro povoado por gente sinistra. Cansei de ouvir entre copos de whisky, no Bar 20 de Ipanema, histórias bizarras sobre operadores como Naji Nahas, Paulo Guedes e outros tubarões do mercado financeiro.

O filme que os operadores adoravam era “Wall Street, poder e cobiça”.

Certa vez fui chamado pelo meu chefe para fazer uma viagem a São Paulo, em um sábado, para receber uma mala de grana no aeroporto de Congonhas e trazer para o Rio, em um bate e volta. Eu iria junto com um segurança a tiracolo, e cada um receberia uma mala. Desconfiado após ouvir tantas histórias, recusei a demanda do serviço, o que me ocasionou um “rebaixamento” para trabalhar somente na parte de turismo da Casa de Câmbio, entregando passagens aéreas e vouchers para clientes.

Já na segunda-feira seguinte eu já cumpria minhas novas funções de “rebaixado” e senti a falta do segurança “R” , um camarada legal que era lutador de jiu jtsu e morador do Rio das Pedras, uma favela localizada na Zona Oeste do Rio, nas proximidades da Barra da Tijuca.

Na terça-feira pela manhã, um operador me chamou para tomar um café no bar próximo, abro parênteses para dizer que este amigo bebia uma dose de cachaça e uma coca-cola, para “liberar a adrenalina” do trabalho. E este mesmo me informou que o segurança “R” havia sido preso em Congonhas pela Policia Federal com malas de dinheiro que somavam US$ 1 milhão, isso mesmo.

Certamente alguém entregou o “R”, sendo que o mesmo só retornou ao trabalho após 10 dias. O camarada nunca quis me explicar o que tinha de fato acontecido em Congonhas. Se tornou um cara triste e fechado.

O fato é que um mês depois apareceu uma oportunidade para trabalhar no sistema “S” e me mandei. Nunca mais vi o “R”, e descobri, recentemente, após uma pesquisa no sistema da Previdência Social que os donos da casa de câmbio nunca recolheram meu INSS e nunca fizeram o depósito do meu FGTS.

Uma coisa é certa, escapei de uma furada. E minha mãe sempre me dizia: meu filho, em ônibus nunca carregue a bolsa de ninguém que esteja em pé.

Um delegado já dizia, Ipanema “cheira mal”.

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André Lobão
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Written by André Lobão

Apenas um jornalista antineoliberal, anticapitalista e brasileiro, acima de tudo.

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